2006
CARTA DE INTENÇÕES
Que eu possa abrir minha casa como uma garrafa de vinho. Que eu possa sair de casa como uma garrafa de champanhe. Que eu possa respeitar opiniões diferentes da minha. Que eu não tente convencer ninguém a pedir desculpas. Que eu possa me desculpar antes do ódio. Que eu possa escrever cartas de amor de repente. Que eu possa viajar para adorar a distância. Que eu possa voltar para dizer o que não tive coragem. Que eu possa conversar com estranhos para matar a estranheza. Que eu possa comprar fiado minha própria fé. Que eu pense em meu amor ao atravessar a rua. Que eu pense na rua ao atravessar o amor. Que eu erre um caminho para descobrir novas paisagens. Que eu ajude sem questionar. Que eu dê conselhos sem condenar. Que eu possa aprender a dizer sim. Que eu seja a vontade de rir. Que eu prepare pratos exóticos para aumentar a fome. Que eu assobie para chamar a alegria. Que eu possa chorar ao assistir filmes. Que eu possa embaralhar o sal com o açúcar. Que eu não seduza para confundir. Que eu seduza para iluminar. Que eu não sacrifique a confiança pela covardia. Que eu não mude de ideologia para conseguir um emprego. Que eu tenha dúvidas, melhor do que certezas e falir com elas. Que eu possa barbear o medo. Que a poesia não fique na estante mais escondida das livrarias. Que minha letra saiba montar no cavalo das linhas. Que eu cuide das plantas da mão alisando a chuva. Que eu tenha menos vaidade. Que eu tenha mais realidade. Que eu invente mentiras convincentes para chegar às verdades. Que eu não tenha receio de ser ridículo. Que eu faça amizades falando do tempo. Que eu escreva nos livros o que os livros me escrevem. Que eu possa brincar mais sem contar as horas. Que eu possa amar mais sem contar as horas. Que eu aceite os conselhos da loucura. Que eu possa caminhar a esmo na respiração. Que eu durma fazendo sexo. Que eu me levante de bom humor. Que o governo seja competente para ser esquecido. Que eu não pergunte a uma mulher sua idade ou se está grávida. Que eu me lembre do nome de colegas da infância. Que eu me lembre dos finais dos filmes. Que eu lembre do início dos olhos. Que eu me lembre de ser feliz enquanto ainda estou vivo.
Fabrício Carpinejar
...
Em Tempo 1:
24/12/2005, 22:30,Tijuca
eu no trânsito, quando olho pro lado, vejo papai noel num honda civic vermelho, buzinando. Fiz o que toda pessoa sensata faria, xinguei: "Velho FDP, esse ano só ganhei um cinto e uma cueca!!!"
Em tempo 2: O texto acima são enxertos de um texto do meu poeta contemporâneo preferido, Fabricio Carpinejar. Vale a pena checar outros textos dele: www.carpinejar.blogger.com.br
Winamp: Why Worry - Dire Straits
Que eu possa abrir minha casa como uma garrafa de vinho. Que eu possa sair de casa como uma garrafa de champanhe. Que eu possa respeitar opiniões diferentes da minha. Que eu não tente convencer ninguém a pedir desculpas. Que eu possa me desculpar antes do ódio. Que eu possa escrever cartas de amor de repente. Que eu possa viajar para adorar a distância. Que eu possa voltar para dizer o que não tive coragem. Que eu possa conversar com estranhos para matar a estranheza. Que eu possa comprar fiado minha própria fé. Que eu pense em meu amor ao atravessar a rua. Que eu pense na rua ao atravessar o amor. Que eu erre um caminho para descobrir novas paisagens. Que eu ajude sem questionar. Que eu dê conselhos sem condenar. Que eu possa aprender a dizer sim. Que eu seja a vontade de rir. Que eu prepare pratos exóticos para aumentar a fome. Que eu assobie para chamar a alegria. Que eu possa chorar ao assistir filmes. Que eu possa embaralhar o sal com o açúcar. Que eu não seduza para confundir. Que eu seduza para iluminar. Que eu não sacrifique a confiança pela covardia. Que eu não mude de ideologia para conseguir um emprego. Que eu tenha dúvidas, melhor do que certezas e falir com elas. Que eu possa barbear o medo. Que a poesia não fique na estante mais escondida das livrarias. Que minha letra saiba montar no cavalo das linhas. Que eu cuide das plantas da mão alisando a chuva. Que eu tenha menos vaidade. Que eu tenha mais realidade. Que eu invente mentiras convincentes para chegar às verdades. Que eu não tenha receio de ser ridículo. Que eu faça amizades falando do tempo. Que eu escreva nos livros o que os livros me escrevem. Que eu possa brincar mais sem contar as horas. Que eu possa amar mais sem contar as horas. Que eu aceite os conselhos da loucura. Que eu possa caminhar a esmo na respiração. Que eu durma fazendo sexo. Que eu me levante de bom humor. Que o governo seja competente para ser esquecido. Que eu não pergunte a uma mulher sua idade ou se está grávida. Que eu me lembre do nome de colegas da infância. Que eu me lembre dos finais dos filmes. Que eu lembre do início dos olhos. Que eu me lembre de ser feliz enquanto ainda estou vivo.
Fabrício Carpinejar
...
Em Tempo 1:
24/12/2005, 22:30,Tijuca
eu no trânsito, quando olho pro lado, vejo papai noel num honda civic vermelho, buzinando. Fiz o que toda pessoa sensata faria, xinguei: "Velho FDP, esse ano só ganhei um cinto e uma cueca!!!"
Em tempo 2: O texto acima são enxertos de um texto do meu poeta contemporâneo preferido, Fabricio Carpinejar. Vale a pena checar outros textos dele: www.carpinejar.blogger.com.br
Winamp: Why Worry - Dire Straits


