Friday, December 23, 2005

Liberdade

Todo ano eu escrevo um post no blog sobre minhas impressões em relação à euforia natalina, e esse ano não vai ser diferente, então lá vai.

Eu sempre achei que ficasse mais triste no natal. Sempre olhei pro lado me sentindo deslocado, vendo todos felizes comprando presentes; aguardando ansiosos para ver "Milagre na rua 34" pela trigésima nona vez; Fazendo fila na porta da Sandpiper pra comprar um short hediondo para o marido da sobrinha do cunhado da irmã; Ganhar um desodorante ou água de colônia da Natura de uma tia velha e fazer cara de "puxa, como você adivinhou que o que você me deu ano passado havia misteriosamente desaparecido junto ao do ano retrasado?"
Enfim... nunca entendi pq eu era o único anormal que não fica ansioso por mais um natal e ano novo, até esse ano. Esse ano eu saquei tudo. Eu não fico mais triste no Natal e reveillon; São OS OUTROS que aparentam estar mais felizes. Na verdade, eu não fico mais triste, mas como os outros parecem mais felizes, comparativamente eu fico abaixo da média. Será?

Sou contra fórmulas instantâneas. Coisas como "Perca sua barriga em 2 semanas!", "Cresça o cabelo com 1 pomada!", "Trago o amor da sua vida em 15 dias!!" e "Seja Feliz por uma noite no Reveillon!!" nunca me convenceram.

O reveillon e o natal são pílulas de felicidade instantânea que você é obrigado a tomar, ou a sociedade enfia elas goela abaixo pra você. São bolhas de felicidade. Mas como as crianças bem sabem, toda bolha um dia estoura. No caso do reveillon, 24 horas depois quando a pessoa percebe que tudo continua como antes: Sim, você continua tendo que trabalhar o dia inteiro. Não, o amor da sua vida ainda não apareceu. Ah, e dá uma passadinha na praia, pq aparentemente Iemanjá mandou de volta aquelas flores que você deu pra ela e os garis estão recolhendo antes que os gringos percebam o quanto o carioca é porco, sujando as praias.

Eu queria apenas uma vez ser livre. Que a sociedade me deixasse em paz, ouvindo Dire Straits ao invés de Jingle Bells, vendo o DVD da Joss Stone ao invés do show do Roberto Carlos (inédito e emocionante, como todo ano). Eu queria não ter a obrigação de ser feliz. Eu queria a liberdade de escolha. Eu escolho ser feliz ou triste ou simplesmente não pensar nisso o ano inteiro, pq não posso também no feriado?

Claro, se você leu o que eu escrevi mas não ouviu o que eu disse vai pensar "nossa, que depressão!" - Mas não é, garanto. E se você me vir hoje vai sacar isso. É apenas uma revolta moral contra alguns dogmas da sociedade que me revoltam. A minha indignação não é me empanturrar de rabanada; é ter data marcada pra isso.
E se você ainda entender isso como tristeza, por favor amarre uma notinha de 2 reais nas suas flores pra iemanja... quem sabe ela não aceita suborno? E se não, pelo menos é uma gorjeta pro pobre Gari que vai ter que limpar sua porcalhada no dia seguinte...

No Winamp: Anna Begins - Counting Crows